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Preservando a Memória e construindo a História dos 200 anos da Imprensa no Brasil

Ao ingressar no século XXI, o Brasil sofre de mal endêmico. Sua imprensa permanece restrita a uma fatia minoritária da sociedade, excluindo da cultura escrita os nossos grandes contingentes populacionais.

É reduzido o número de brasileiros que são leitores regulares de livros, revistas ou jornais, quando comparados aos estadunidenses, canadenses, ingleses, franceses, argentinos ou chilenos.

Assume característica singular a crise nacional da lei-tura de jornais. A expansão das tiragens diárias mostra-se absolutamente descompassada com o ritmo do incremento demográfico.

Na década de 50 tínhamos um volume diário de 5,7 milhões de exemplares de jornais para uma população de 52 milhões de habitantes. Chegamos ao ano 2000 com uma tiragem diária de 7,8 milhões de jornais para uma população estimada em mais de 170 milhões de pessoas.

O mais grave em tal confronto estatístico está no fa-to de que, no mesmo período, ampliou-se a escolarização em todo o país, reduzindo-se a taxa de analfabetismo. Paralelamente, ocorreu elevação da renda nacional, elastecendo-se a capacidade aquisitiva das camadas médias da população.

Diante desse quadro calamitoso, a Rede Alfredo de Carvalho lançou bandeira destinada a converter o século XXI no século da imprensa brasileira, contribuindo para o fortalecimento da nossa cidadania. Sua premissa é a de que o processo civilizatório ancora-se na capacidade de abstração intelectual dos componentes de qualquer sociedade humana.

A Rede Alfredo de Carvalho foi constituída formalmente em reunião efetuada na sede da ABI – Associação Brasileira de Imprensa, na cidade do Rio de Janeiro, no dia 5 de abril de 2001. O anfitrião do encontro, jornalista Fernando Segismundo , fez emblemática alusão histórica. Ele disse que a utopia ali esboçada assemelhava-se ao sonho que, há um século, impulsionara Gustavo de Lacerda a lançar as bases do associativismo jornalístico no país.

Em 1908, ninguém acreditava que fosse possível transformar o ofício noticioso numa profissão juridicamente reconhecida e socialmente legitimada. Em 2001, lembrava o atual presidente da ABI, alguns duvidarão da oportunidade de se recuperar o tempo perdido, transformando a imprensa em alavanca civilizatória, quando já se proclama até mesmo a sua morte tecnológica.

Pretende-se retomar o trabalho realizado, no início do século XX, pelo historiador pernambucano Alfredo de Carvalho, sob os auspícios do IHGB – Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro . Ele realizou a primeira pesquisa integrada sobre a imprensa brasileira . Constituiu-se, na verdade, em artífice do inventário documental que preparou o terreno para a aventura historiográfica reservada aos jovens pesquisadores da mídia impressa.

Foi baseada nessa sistematização das fontes da moderna História nacional que a historiadora Esther Bertoletti empreendeu, no último quartel do século XX, o ousado Plano Nacional de Microfilmagem dos Periódicos Brasileiros . Trata-se naturalmente de obra a ser completada, com a criação da Hemeroteca Nacional. Esse programa destina-se a retirar as coleções de jornais e revistas dos porões da Biblioteca Nacional , intensificando o seu uso por parte da comunidade acadêmica. Somente assim será possível preservar a memória daqueles que construíram a opinião pública e fortaleceram a democracia participativa no Brasil.

A plataforma de ação da Rede Alfredo de Carvalho inclui, como item prioritário, a atualização do inventário da imprensa brasileira. Deseja-se completar as lacunas deixadas pela equipe de 1908, além de fazê-lo avançar até 2008. Mais do que isso: pretende-se realizar a interpretação dos dados acumulados, construindo indicadores capazes de balizar o trabalho dos historiadores e dos cientistas da comunicação.

Essa tarefa inicial será assumida por uma equipe multi-universitária, liderada pelo Núcleo de Jornalismo da INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. Também estão sendo convocadas as duas outras associações acadêmicas do campo comunicacional brasileiro: a ABECOM – Associação Brasileira de Escolas de Comunicação Social e a COMPÓS – Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação.

Essa pesquisa deverá estar concluída em 2008, esperando-se cobrir todo o território nacional. Os levantamentos e análises tomarão a cidade como espaço referencial, buscando-se, em fase mais avançada, tecer as malhas das conexões regionais, identificando também aqueles traços nacionalmente hegemônicos.

A metodologia científica a ser adotada pelos grupos ancorados nos diferentes espaços urbanos está sendo construída e testada no Rio de Janeiro, sob a responsabilidade dos jornalistas-historiadores Marialva Barbosa (UFF) e Marco Morel (UERJ).

Na tentativa de conquistar novas adesões acadêmicas e de angariar apoios institucionais duradouros, a Rede Alfredo de Carvalho programou um calendário de eventos para o ano 2001. Sua intenção explícita é a de transformar a imprensa em tema permanente da agenda midiática, dando visibilidade às ações desencadeadas pelos pesquisadores acadêmicos.

A maratona cultural inicia-se justamente no período de 25-27 de abril, com a realização deste ciclo de conferências, em Salvador, a primeira capital brasileira, para celebrar os 190 anos de implantação da tipografia na Bahia. 

Essa mesma temática voltará a ser objeto de debates durante a 51a. Reunião Anual da SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência -, prevista para julho deste ano, na capital baiana, sob a coordenação do editor-historiador Luis Guilherme Pontes Tavares.

Peça-chave dessa operação de resgate da memória midiática nacional, a revista IMPRENSA está programando, em parceria com a ABI, o lançamento, durante este ano, de dois CDRoms. Eles reunirão as coleções completas dos primeiros jornais brasileiros lançados em 1908: o Correio Braziliense, redigido por Hipólito da Costa, e a Gazeta do Rio de Janeiro, cujo editor pioneiro foi o Frei Tibúrcio José da Rocha.

Além disso, o Editor Sinval Itacarambi Leão planeja editar antologia sob o título Memória da Imprensa – 200 anos da Comunicação Brasileira, 1808-2008. Trata-se de uma coletânea dos encartes que a revista IMPRENSA vem publicando, desde junho do ano 2000, contendo as histórias de vida dos protagonistas principais do jornalismo brasileiro: editores, repórteres, inventores, empresários e publicistas.

PLATAFORMA DA REDE “ALFREDO DE CARVALHO”

a) Estrutura

– Objetivo:
   Desenvolver ações públicas destinadas a comemorar os 200 anos de implantação da imprensa no Brasil, preservando sua memória e construindo sua história. Pretende-se contribuir para o avanço da mídia impressa no novo século, de forma integrada com a mídia eletrônica e a mídia digital, tornando-a patrimônio coletivo do povo brasileiro.

– Intenção:
   A motivação principal é a de alavancar iniciativas capazes de converter a imprensa em instrumento civilizatório. Trata-se de socializar seus benefíçios culturais para toda a sociedade e não apenas para as elites, como vem ocorrendo historicamente nos dois primeiros séculos de sua existência em território nacional.

– Constituição
   Para tanto, a Rede Alfredo de Carvalho será integrada por entidades que atuam no ensino, pesquisa, fomento, profissionalização, produção midiática, bem como outros setores vinculados a esse campo da atividade intelectual.
   As adesões podem ser feitas também por pessoas físicas: professores, pesquisadores, profissionais, estudantes e outros interessados em contribuir voluntariamente para a consecução dos objetivos da Rede.

b) Programas

– Estudos:
    Programa de pesquisas a ser desenvolvido pelas universidades, sob a égide das sociedades científicas e das associações profissionais, com a finalidade de refazer, atualizar e aprofundar o trajeto percorrido por Alfredo de Carvalho no início do século XX.

– Cursos:
   Programa destinado a re-introduzir e aperfeiçoar o estudo da História da Imprensa Brasileira nas universidades, contribuindo para formar novas gerações de jornalistas e historiadores capazes de assimilar as lições do passado, aplicá-las ao presente e projetá-las no futuro.

– Eventos:
   Programa de seminários, simpósios, colóquios, mesas redondas e outras iniciativas destinadas a fortalecer a identidade da imprensa brasileira, ao mesmo tempo contribuindo para alicerçar as ações da Rede Alfredo de Carvalho junto à opinião pública.

 – Publicações:
   Programa vocacionado para a reedição de coleções, livros raros e outras peças emblemáticas, potencializando os recursos das tecnologias digitais e contribuindo para a difusão do conhecimento estocado sobre a memória da imprensa brasileira. Trata-se de socializar documentos de interesse públicas, úteis à formação cívica das novas gerações.
   Desde junho de 200 a revista IMPRENSA vem publicando a série “200 anos da imprensa brasileira”, em parceria com a Cátedra UNESCO/UMESP de Comunicação. Existe a possibilidade de que tais encartes venham a ser reunidos em volumes anuais, sob o título Memória da Imprensa – 200 Anos da Comunicação Brasileira, 1808-2008.

c) Projetos
    Os Projetos a serem desenvolvidos pela “Rede Alfredo de Carvalho” (REALCAR) correspondem a iniciativas do tipo;

Projetos Coletivos (PC) – iniciativas solidárias, resultantes de parcerias entre duas ou mais instituições;
Projetos Autônomos (PA) – iniciativas isoladas, promovidas por uma determinada instituição.

   Os Projetos que aspiram receber, para efeitos de divulgação ou busca de patrocínio, o selo identificador da “Rede Alfredo de Carvalho”, devem ser submetidos previamente ao Coordenador da REALCAR para análise pelo CAP – Comitê de Avaliação de Projetos.

   Há vários projetos em fase de planejamento: Cursos, Publicações e Pesquisas. O segmento dos Eventos é contudo aquele que se definiu prioritariamente, justamente pela função motivadora para a sedimentação e fortalecimento da Rede.